26 Jan 26 | Cecília Carmo

Os “Chicos espertos” do dia-a-dia

Em todas as cidades há sempre alguns. Reconhecem-se à distância: andam de peito feito, com aquele ar de quem descobriu um segredo que os outros ignoram. São os famosos “Chicos espertos”.

Aparecem logo de manhã, a passar à frente na fila da pastelaria porque “é só um café, não demora nada”. No trânsito, acreditam que ligar os quatro piscas transforma qualquer lugar em estacionamento reservado. E quando o assunto é impostos, já têm a desculpa pronta: “Ora, se o Estado rouba, porque é que eu não hei-de roubar também?”.

O mais curioso é que o “Chico esperto” vive convencido de que está a enganar o mundo inteiro. Mas, na verdade, apenas empurra o peso para cima dos outros: o vizinho que cumpre, o colega que espera a sua vez, o cidadão que respeita a lei. Enquanto uns remam para o barco seguir em frente, ele acha graça em furar o casco. E há tantos por aí!

E aqui está a ironia: durante anos, a malandragem foi vista como sinal de inteligência — “quem se safa é que é esperto”. Mas não há nada mais ultrapassado. A verdadeira esperteza não é aldrabar o sistema; é poder confiar nos outros, viver sem precisar de desconfiar de cada “atalho” inventado por alguém.

No fim, o “Chico esperto” pode rir-se da sua pequena vantagem. Só que a conta sobra sempre para o coletivo — e, convenhamos, sai cara. Talvez esteja na hora de deixarmos de achar graça a esta figura e de percebermos que a verdadeira modernidade é simples: jogar limpo.